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:: A Casa do Fogo Eterno :: ll=ll

:: Nem Tudo Que É Real Existe :: ll=ll

Boa noite, ouvintes da Rádio Alvorada! O Café Sertanejo apresenta: a hora do mistério. O programa que abre uma porta para outras realidades. Incríveis. Fantásticas. Sobrenaturais... talvez. O fato é que ha mais coisas entre o céu e a terra do que podemos
compreender ou explicar. Nossa história de hoje nos foi enviada pelo ouvinte que assina com as iniciais JJV. Sua carta nos conta a experiência sinistra de um viajante que procurou abrigo em uma noite de tempestade. E encontrou uma porta aberta para o
inferno: a casa do fogo eterno. Aconselhamos que as pessoas muito nervosas desliguem o rádio agora.

Como representante comercial da Caninha Cristalina, viajo muito pelo Brasil. Conheço todos os cafundós em que Judas perdeu as botas. Mas uma noite eu perdi o rumo. Vinha voltando de Rosal, cidadezinha encravada em um vale. Rodava por uma estrada vicinal,
em direção a rodovia. Noite bonita, estrelada, ventinho bom na cara. Mas o tempo virou de repente: o céu predrejou e despejou um aguaceiro como eu nunca tinha visto na vida. Toró de pedra! Rajadas de gelo metralhando o pará-brisa. Os pneus da caminhonete
logo patinaram em um lamançal. Rodei até me convencer de que estava perdido. Um relâmpago iluminou uma placa na escuridão: CHALÉ DAS FLORES. Seguindo a seta, vireí à esquerda em uma estradinha estreita que subia sempre, voltas e voltas junto à encosta do
morro, de onde rolava uma verdadeira tromba d'água. Outro relâmpago fotografou aquele casarão de três andares no alto do monte. Estacionei debaixo de uma árvore, botei a capa de chuva, meti o boné promocional da Caninha Cristalina, peguei meu farolete no
porta-luvas e iluminei o barreiro até a porta da pousada. A casa parecia desabitada. Nenhuma luz escapava das janelas ou por baixo da porta. Antes que eu batesse ou chamasse, a porta abriu-se, e a casa jorrou uma onda de luz, calor, risos, música.
Barrando a entrada, uma mulher gordíssima, de olhos verdes, envolta em um xale vermelho. Ela sorriu, um dente de ouro reluziu na boca borrada de vermelho:
- Entre logo, moço. Esse tempo faz mal pra saúde. Guardei o farolete no bolso da capa, tirei o boné:
- Boa noite. Posso fazer hora aqui? Não dá pra dirigir com esse temporal.
- Bem-vindo ao Chalé das Flores. Aqui sempre faz tempo bom, é só alegria. O senhor já ouviu falar da casa de madame Ivonete? Não? Venha conhecer.
A mão gorducha de unhas vermelhas fechou-se em meu braço, conduziu-me pelo corredor. Atravessamos uma cortina de veludo vermelho. Em uma saleta à meia luz, vi dez ou doze mulheres enfileiradas em sofás e poltronas. Muito maquiadas e pouco vestidas.
Fumando e fazendo poses provocantes. Então era esse tipo de estabelecimento que Madame dirigia. Por isso ficava tão afastado da estrada. O dente de ouro rebrilhou na penumbra:
- Aqui estão as minhas flores. As rosas do jardim de Madame Ivonete. Cada uma mais linda que a outra. O senhor gostou de alguma?
As "rosas" abriram sorrisos, faiscaram olhares sedutores. Gaguejei que estava cansado da viagem, precisava só de um quarto e de um café forte antes de partir. Notei que as máscaras maquiadas se retorceram com desdém. Madame levou-me pelo braço, rumo às
portas envidraçadas no fundo do corredor. No amplo salão com mesas, dezenas de homens e mulheres bebiam riam com estardalhaço. Nas paredes, grandes espelhos multiplicavam aquela multidão. No fundo, um grupo de músicos tentava suplantar o escarcéu com
violões, cavaquinho, clarinete, flauta pandeiro.
- Nossos clientes são muito especiais. Políticos, juízes, doutores, autoridades. Muita gente viaja mais de cem quilômetros para prestigiar a nossa casa. Posso providenciar uma mesa para o senhor?
Sorri por educação, aleguei uma dorzinha de cabeça. Madame não se deu por vencida, puxou-me para outra porta.
- Quem sabe o senhor gosta de um carteado?
No quarto enfumaçado, homens fumando e jogando baralho, muito concentrados. Mas um dos jogadores, magro e seco como uma múmia egípcia, múmia amarela, com bigode e cavanhaque, me encarou com um sorriso malicioso. Parecia mais um desafio do que um convite.
- Madame, desculpe, mas estou muito cansado. Quero só dormir um pouco e pegar a estrada de novo quando a chuva parar.
- Pena. Gostaria tanto que o senhor ficasse conosco. Aceita um golinho de aguardente? Nós temos a sua marca - ela indicou o boné em minha mão.
- Obrigado. Não bebo quando dirijo. Nem para dormir. Quase nunca bebo.
Recebi afinal a chave do quarto 18, no segundo andar. Tirei a capa, os sapatos enlameados, pus meu relógio sobre o criado-mudo e me estiquei na cama. A música, o vozerio, as gargalhadas, os raios e trovões me mantiveram acordado por algum tempo. Sonhei
que jogava cartas com a múmia, e perdia todas as rodadas. Ele sorria com dentes pontiagudos. Suas mãos eram impressionantes: finas, compridas, amareladas, com unhas enormes. Pareciam garras recolhendo meu dinheiro. Depois de apostar e perder meu relógio
de pulso, bati na mesa:
- Pra mim chega. Não tenho mais nada de valor. Ele sorriu, penteou o cavanhaque com as unhas:
- Claro que tem, meu amigo. Quer apostar?
- O quê?
- A sua alma.
Os olhos dele eram duas brasas. Meu sangue gelou, mas alguém me arrancou da mesa de jogo:
- Acorde, meu filho!
Abri os olhos. Vi um padre à beira da cama. Jovem, pálido, apavorado. Fechei os olhos, achei que continuava sonhando: o que um padre estaria fazendo na casa de Madame Ivonete? Ele me sacudiu pelos ombros, gritou com sotaque italiano:
- A casa está pegando fogo! Foge, meu filho! Salve sua alma!
Saltei da cama, zonzo. Mal calcei os sapatos, o padre empurrou-me para fora. O casarão estalava como lenha no fogo. Cruzei a nuvem de fumaça negra do corredor, desci a escada em três pulos. O térreo era uma floresta de labaredas. O salão, uma boca de
vulcão. Gritos de horror lá dentro.
- Vou buscar ajuda! - gritei para ninguém.
- Tarde demais! Salve-se, meu filho! - disse a voz dentro do fogo.
Corri para a caminhonete, dei partida, manobrei para a estradinha. Pelo retrovisor, vi o casarão engolido pelas chamas. A chuva tinha passado. Quando alcancei a estrada, uma placa me orientou: "BEM-VINDOS A ROSAL". Pisei fundo no acelerador. Dez minutos
depois, entrei velozmente pela avenida Nossa Senhora do Rosal. Já na praça da Matriz, vi um policial militar diante de um carrinho de cachorro-quente.
- O Chalé das Flores tá pegando fogo! Onde fica o corpo de bombeiros?
O vendedor ficou me olhando sem dizer palavra. O policial continuou mastigando seu cachorro-quente. Apontei o monte ao longe: o clarão do incêndio manchava as nuvens de vermelho.
- Outra vez, meu Deus! - o vendedor fez o sinal da cruz.
- Isso não vai acabar nunca - o policial falou de boca cheia.
- Vocês não ouviram? Fogo! Onde fica o quartel dos bombeiros?
O policial deu outra dentada no sanduíche e disse:
- Segue em frente pela avenida. Terceira rua à direita.
- Vai com Deus! - o vendedor gritou.
Arranquei para lá. Saltei berrando "fogo!". Um bombeiro indicou o primeiro andar do sobrado. Trotei escada acima. Vi um oficial sentado, um jornal aberto sobre a mesa. Estava fazendo as palavras cruzadas.
- O Chalé das Flores ta pegando fogo!
O homem me encarou em silêncio, repuxando o bigodão branco. Li seu nome no bolso da túnica: Sargento Floriano. Ele se levantou devagar e foi espiar o céu vermelho sobre o monte. Fungou, abanou a cabeça grisalha. Caminhou até o bebedouro e encheu um copo
d'água. Voltou sem pressa e me entregou o copo:
Me instalou num banco de madeira e sentou-se a meu lado. Tudo na maior calma do mundo. Fiquei estarrecido. Onde estava a presteza dos soldados do fogo?
- Descansa, moço. Não tem incêndio nenhum. O Chalé das Flores não existe mais. Pegou fogo faz muito anos.
- Mas eu vim de lá agora!
- É o que estou lhe dizendo: o incêndio foi há mais de vinte anos.
Mudo, assombrado, ouvi aquela história inacreditável. A pousada de Madame Ivonete tinha existido mesmo. Mas fora destruída por um incêncio. Acreditavam que um raio caíra no casarão. Madame Ivonete, suas mulheres e seus clientes tinham torrado até virar
cinzas.
- O senhor entendeu? Não há incêndio nenhum. Esqueça isso.
- Mas eu acabei de sair de lá... O padre me acordou. Um padre com sotaque italiano. Não tem um padre assim aqui na região?
Floriano suspirou fundo, fechou os olhos por um instante.
- Já teve, sim. O padre Nello. Mas ele desapareceu naquela noite. Ninguém sabe o que houve. Nem a igreja.
Aqui em Rosal ninguém gosta de falar disso. Isso foi só uma ilusão. Acontece com outros viajantes. O senhor não é o primeiro. Quer uma prova! Veja la fora. Olhei para o monte, através do janelão. O brilho do fogo desaparecera.
- É melhor o senho descansar. A pensão XV de Novembro fica aqui do lado. Venha. Eu acompanho o senhor até lá.
O relógio na padaria da pensão marcava quinze para as quatro da manhã. Desabei na cama e mergulhei novamente no pesadelo. Madame Ivonete sorria, reluzindo seu dente de ouro. Recusei suas gentilezas, repeli o desafio da múmia de dentes pontiagudos e unhas
longas. Acordei com o grito do padre: "Foge, meu filho!". Pela claridade no quarto, o dia já era velho. Lavei o rosto na pia, espiei pela janela: quatro da tarde no relógio da torre da igreja. Fechei a conta e saí. Passando em frente ao quartel de
bombeiros, vi o sargento Floriano na janela do sobrado. Ele fez um aceno de cabeça e voltou para dentro. Eu entrei na lanchonete baronesa do Rosal. Depois do bife, do café e da gorjeta, puxei convesa com o balconista:
- Tem um Chalé das Flores aqui por perto?
- Não tem mais. Queimou faz tempo.
- E... o senhor conhece um padre italiano? O padre ...


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